"Paciente internado em hospital com inchaço severo na região da mandíbula e tubos de oxigênio nasal."

Ele quase perdeu a língua por causa de um vírus que a maioria dos homens ignora completamente

Saúde e Bem-Estar

Tem coisa que a gente só aprende quando quase perde tudo.

"Paciente internado em hospital com inchaço severo na região da mandíbula e tubos de oxigênio nasal."
Condição médica grave: paciente com inchaço acentuado na mandíbula recebe assistência hospitalar com suporte de oxigênio.”

Foi assim com Anthony Perriam, um pai de família de 41 anos que morava a sua vida normal lá no País de Gales — aquela região que fica na parte oeste da Inglaterra, pra quem não lembra da aula de geografia — até o dia em que passou a mão no pescoço e sentiu algo diferente. Um carocinho. Pequenininho. Que não doía nada.

Muita gente teria ignorado. Ele não ignorou. E essa decisão salvou a vida dele.


Um caroço que não doía e quase matou

Sabe quando você sente uma íngua e pensa “ah, deve ser estresse, vai passar”? Pois é. A maioria de nós faz isso. Anthony também poderia ter feito. Mas alguma coisa por dentro disse que ele devia ir ao médico verificar. Foi.

Poucas semanas depois, a notícia veio pesada: câncer. De cabeça e pescoço. Causado pelo HPV.

Aquele mesmo HPV que você provavelmente associa só ao universo feminino. O do Papanicolau. O do câncer de colo do útero. Esse mesmo.

“Eu só tinha ouvido falar do HPV em relação ao câncer de colo do útero”, ele contou. “Nunca imaginei que podia me afetar assim.”

E olha, ele não estava sozinho nessa ignorância não. A maior parte dos homens — e das mulheres também, honestidade seja feita — não sabe que o HPV pode causar tumor na língua, na garganta, nas amígdalas. É real. É mais comum do que parece. E é silencioso.


O diagnóstico que ninguém quer ouvir

Quando os exames confirmaram tudo — tomografia, biópsia, ressonância magnética — Anthony já era pai de dois meninos pequenos. Um com 3 anos, outro com 6.

Dá pra imaginar o que passa na cabeça de um homem nessa hora?

“Meu primeiro pensamento não foi em mim”, ele disse. “Foi neles. Fiquei apavorado pensando nos meus filhos.”

O tumor estava na base da língua. Já tinha comprometido os gânglios linfáticos do pescoço — aquelas glândulas que incham quando você tá gripado, só que num cenário muito mais sério. Quarenta e quatro desses gânglios precisaram ser removidos. O tumor principal foi localizado numa cirurgia com equipamento robótico, daqueles que parecem ficção científica mas que já existem de verdade.

“Detectaram bem a tempo”, ele contou. “Um dos gânglios estava quase rompendo. Se tivesse demorado mais um pouco…”

Ele não precisou terminar a frase.


O tratamento foi bruto. Sem romantismo nenhum.

Radioterapia. Quimioterapia. Vinte e dois quilos perdidos. A saliva foi embora junto — e aí qualquer coisa que ele tentava engolir virava aquela sensação de pó seco na boca. Até água era difícil.

Ficou tão fraco que passou a depender de cadeira de rodas pra percorrer o corredor do hospital até a sala de tratamento. Todo dia. Aquilo foi pesando na cabeça também, não só no corpo.

Mas tinha dois meninos esperando em casa.

“Minha família me deu motivação pra aguentar. Eu queria viver pra comemorar meu aniversário de 40 anos.”

Comemorou. Hoje fala normalmente. Come. Tá junto dos filhos. E usa cada oportunidade que tem pra avisar outros homens sobre o que quase aconteceu com ele.


Então, o que é esse vírus afinal?

O HPV — papilomavírus humano — é um vírus que praticamente todo mundo vai ter contato alguma vez na vida. Ele tem mais de cem variações diferentes e se transmite pelo contato pele a pele na região genital, por relações sexuais de qualquer tipo e até compartilhando objetos íntimos.

A maioria das pessoas elimina o vírus naturalmente, sem nem saber que foi infectada. O problema é quando o organismo não consegue dar conta disso — e o vírus fica, muta, e começa a virar algo perigoso.

Em mulheres, o caso mais conhecido é o câncer de colo do útero. Em homens, o que aparece com mais frequência é justamente o câncer de cabeça e pescoço. Língua, garganta, região oral. Lugares que a gente não associa a vírus sexualmente transmissíveis.

E é por isso que tanta gente é pega de surpresa.


A vacina existe. E aqui no Brasil é de graça.

Isso é o que mais dói quando a gente fica sabendo de histórias como a de Anthony. Porque tem prevenção. Tem vacina. E no Brasil, o SUS oferece gratuitamente pra crianças e adolescentes entre 9 e 14 anos.

A lógica é simples: a vacina funciona melhor antes do início da vida sexual, quando o organismo ainda não teve contato com o vírus. Por isso a faixa etária é essa.

Lá no País de Gales, a vacina começou a ser aplicada em 2008. Desde então, os casos de câncer de colo do útero em mulheres jovens caíram quase noventa por cento. Noventa. Esse número não é exagero, não.

Se você tem filho ou filha nessa faixa de idade e a caderneta de vacinação tá incompleta, vale muito a pena passar numa unidade de saúde perto de casa. Sem enrolação, sem deixar pra depois.


O que Anthony pede, e que faz todo sentido

“Se você notar um caroço, mesmo que não doa, vai fazer um exame.”

Simples assim. Sem drama, sem complicação. É só isso.

O problema é que os homens, de maneira geral, têm uma relação estranha com médico. Deixam passar. Acham que vai sarar sozinho. Têm vergonha às vezes. É quase uma coisa cultural mesmo — aqui no Brasil então, nem se fala. Homem que vai muito ao médico ainda leva piadinha de conhecido.

Mas Anthony poderia ter ficado sem a língua. Poderia ter morrido antes de ver os filhos crescerem. Ele foi porque seguiu um instinto. E deu certo.

“Não se fala o suficiente sobre esse tipo de câncer entre os homens. A detecção precoce salva vidas.”

Salva mesmo. Sem exagero.


Uma coisa prática que você pode fazer hoje

Se você sentir qualquer caroço persistente no pescoço ou região da mandíbula que não some em duas semanas, procura um médico. Sem enrolação.

Se você tem filhos entre 9 e 14 anos, hoje mesmo olha a caderneta deles. A vacina contra HPV tá disponível nas UBSs do país inteiro, sem custo nenhum.

E conta essa história pra alguém. Pra um amigo, pro seu irmão, pro seu marido que nunca vai ao médico. Às vezes uma história simples como essa muda uma decisão. E uma decisão pode mudar tudo.

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