Uma vizinha ouviu um choro vindo da rua. Achou estranho, foi ver o que era. Dentro de um bueiro, enrolada numa coberta, estava uma menina de pouco mais de um mês.
Foi assim, num bairro de Ibirité, na Grande BH, que começou uma história que correu o país.
O choro que veio do bueiro
Era manhã de quinta-feira no bairro Cascata quando Regina passou pela rua e escutou um som diferente. Parou. Prestou atenção. O barulho vinha de um bueiro perto de uma área de mata.
Ela se aproximou e encontrou a bebê. Um adolescente de 14 anos que trabalha num sítio próximo contou que tinha visto um casal deixar a criança ali pouco antes, depois de uma briga.
Regina pegou a menina e chamou a polícia.
Na UPA, um gesto que ninguém esperava
A Polícia Militar chegou rápido. A bebê foi levada para a UPA da cidade. No caminho, já tinham acionado o rádio para tentar localizar o casal. Não demorou muito: os dois foram identificados e presos.
Mas foi dentro da UPA que a história tomou outro rumo.
A bebê voltou a chorar. Chorava muito. A soldado Dieny Helem da Silva Valério, 32 anos, que estava na ocorrência, é mãe de uma menina de um ano e nove meses e ainda amamenta. Ela pegou a bebê no colo e ofereceu o seio.
Não foi um gesto planejado. Foi instinto.
“Uma dó o que está acontecendo”, disse ela depois, emocionada. A bebê, segundo apurado, nasceu no dia 7 de janeiro.
Dieny está há três anos na corporação. É casada com um policial penal. Não estava esperando virar símbolo de nada. Fez o que achou certo naquele momento, dentro de uma UPA, de farda.
O que acontece agora

O casal foi encaminhado à delegacia de Ibirité e deve responder por abandono de recém-nascido. O Artigo 133 do Código Penal, que trata do abandono de incapaz, prevê pena de seis meses a três anos de detenção — mais em caso de lesão grave ou morte. O ECA também entra em campo para garantir proteção à criança, que será acompanhada pelo Conselho Tutelar.
Não foi caso isolado
Na semana anterior, um recém-nascido foi encontrado dentro de uma sacola plástica em um lote vago em Jaboticatubas, também na Grande BH. A mãe foi identificada e presa. A criança sobreviveu.
Dois casos em menos de uma semana na mesma região.
Vale lembrar que existe uma alternativa legal para mães que não conseguem criar seus filhos: a entrega voluntária, que pode ser feita ainda durante a gravidez, pelo Conselho Tutelar ou pela Justiça, sem que a criança corra risco. Muita gente simplesmente não sabe disso.
Denúncias de violações contra crianças podem ser feitas pelo Disque 100, disponível em todo o país.
O começo dessa história é difícil de ler. Mas no meio dela tem uma policial que, sem pensar duas vezes, alimentou uma bebê que não era sua.
Às vezes é isso que basta.


